Em que consiste a proposta da AfD?
No cerne da proposta está a exigência de que a Convenção de Genebra de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados seja complementada com uma «priorização geográfica». Isto significa que, no futuro, os requerentes de proteção deverão, na medida do possível, ser acolhidos em países vizinhos dos seus países de origem. A AfD fundamenta a proposta com três argumentos.
Em primeiro lugar, devem evitar-se as rotas de fuga perigosas pelo mar ou através dos desertos, uma vez que estas provocam repetidamente muitas mortes.
Em segundo lugar, a ajuda prestada nas proximidades dos países de origem seria mais eficiente e mais económica. Segundo a AfD, os investimentos nas regiões vizinhas poderiam melhorar a assistência aos refugiados e, ao mesmo tempo, reduzir os custos.
Em terceiro lugar, a AfD argumenta que o acolhimento em países vizinhos facilita o regresso posterior. Segundo a proposta, se as pessoas que procuram proteção permanecerem cultural e geograficamente mais próximas da sua terra natal, poderão regressar mais facilmente após o fim de um conflito.
Concretamente, a AfD propõe que se adite o n.º 2 do artigo 1.º-A da Convenção. Segundo o partido, nesse artigo poderia ser estabelecido que a proteção deve ser prestada «em primeiro lugar e, na medida do possível, de forma duradoura» nas regiões vizinhas.
Com esta moção, a AfD insta o Governo federal a empenhar-se, a nível internacional – em particular junto das Nações Unidas (ONU) e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) –, na promoção de uma reforma nesse sentido.
O que prevê a Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados?
A Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados é um dos acordos internacionais mais importantes em matéria de proteção dos refugiados. Foi adotada após a Segunda Guerra Mundial e define quem é considerado refugiado e quais são os direitos dessas pessoas.
De acordo com a Convenção, considera-se refugiado uma pessoa que se encontra fora do seu país de origem e que não pode ou não quer regressar devido a uma ameaça de perseguição. Essa perseguição deve estar relacionada com motivos específicos, tais como a religião, a nacionalidade, as convicções políticas ou a pertença a um determinado grupo social.
Um princípio fundamental da Convenção é o princípio da «não repulsão». Este princípio estabelece que ninguém pode ser deportado para um país onde corra o risco de ser perseguido ou de se encontrar em grave perigo.
É importante notar que, até ao momento, a Convenção não estabelece em que país um refugiado deve receber proteção. É precisamente este ponto que a AfD pretende alterar.
Que alterações a AfD exige concretamente
O AfD pretende complementar as regras existentes. A proteção contra a perseguição deve ser mantida. Ao mesmo tempo, porém, deve ser introduzida uma nova prioridade: os refugiados devem ser acolhidos prioritariamente em regiões geograficamente e culturalmente próximas – desde que aí seja garantida proteção suficiente.
Além disso, a AfD exige
- mais apoio financeiro aos países de acolhimento inicial, nomeadamente para a educação, a saúde e a integração no mercado de trabalho
- o reforço das capacidades de acolhimento nos países vizinhos das regiões em crise
- uma cooperação internacional mais estreita, nomeadamente a nível da UE e da ONU
Na opinião da AfD, um sistema deste tipo permitiria controlar melhor a migração e aliviar a pressão sobre os Estados europeus.
Críticas da CDU/CSU, do SPD, dos Verdes e da Esquerda
A proposta tem sido alvo de ampla rejeição por parte dos outros partidos no Bundestag. Na sessão de debate da passada sexta-feira, os representantes de todos os outros grupos parlamentares manifestaram críticas claras.
Na perspetiva da União, a Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados simboliza a solidariedade internacional. Elisabeth Winkelmeier-Becker (CDU) salientou que esta representa «humanidade e solidariedade além-fronteiras». Na sua opinião, o AfD pretende apenas transferir a responsabilidade para outros países.
Os Verdes também rejeitam claramente a proposta. A deputada do Bundestag Luise Amtsberg referiu-se a um ataque a um princípio fundamental da proteção internacional dos refugiados. A proposta da AfD significa que os requerentes de proteção devem ser mantidos o mais longe possível: «As pessoas em fuga devem ficar onde nos for mais conveniente – ou seja, em qualquer lugar, menos aqui.»
O SPD também alertou para as consequências de uma reforma. Gabriela Heinrich referiu-se à Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados como um importante avanço do pós-guerra e afirmou: «Quem pretender enfraquecê-la ou abolir-la estará a criar uma lacuna perigosa para as pessoas em fuga.»
O grupo parlamentar de esquerda também encara a proposta com ceticismo. Clara Bünger salientou que os direitos fundamentais dos refugiados não podem ser restringidos. «Os refugiados não devem ter de contar com a generosidade de um Estado de acolhimento, mas têm direito à proteção contra a perseguição.»
A Alemanha pode alterar a Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados?
A Convenção de Genebra de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados faz parte do direito internacional. Aplica-se não só à Alemanha, mas a todos os 149 países do mundo que a assinaram.
A Alemanha é, portanto, apenas um dos muitos parceiros contratantes. Isso significa que a Alemanha:
- não pode alterar unilateralmente as convenções
- não pode estabelecer novas regras por conta própria
- não pode obrigar outros Estados a adotar essas alterações
Para que a Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados seja alterada ou adaptada, seria necessário que se realizasse um processo internacional.
Para isso, seria necessário:
- Um Estado (por exemplo, a Alemanha) propor oficialmente uma alteração
- As Nações Unidas (ONU) convocaram uma conferência sobre o assunto
- Os Estados envolvidos estão a negociar a alteração
- Os Estados aprovam a alteração (normalmente através da assinatura e posterior ratificação no seu próprio país)
Uma alteração só se aplicaria aos Estados que a aprovassem. Não existe, portanto, uma obrigação automática para todos.
O que vai acontecer a seguir
A moção da AfD foi inicialmente debatida no Bundestag. Nas próximas semanas, será analisada nas comissões competentes, antes de o Parlamento proceder à votação final.
Uma vez que os outros grupos parlamentares já se manifestaram claramente contra a proposta, considera-se pouco provável que a moção obtenha maioria.
Caso a proposta venha, ainda assim, a obter maioria, o Governo federal seria chamado a defender, a nível internacional, uma reforma da Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados. No entanto, uma alteração efetiva só seria possível com o consentimento de muitos outros Estados e levaria muito tempo.